A história do freediving

A história do freediving é mais antiga que a história escrita. Começa com sobrevivência, passa pela obsessão e chega a algo bem parecido com arte.

Origens antigas

Muito antes de alguém colar a palavra "esporte" em segurar a respiração debaixo d'água, as pessoas mergulhavam para viver.

As Ama do Japão são as freedivers antigas mais documentadas. Por mais de 2.000 anos, mulheres mergulharam sem equipamento atrás de abalones, pérolas, ouriços e algas. Vestiam branco, para que os tubarões as vissem e para que seus corpos pudessem ser encontrados se não voltassem à superfície. Nos anos 1950, havia mais de 20.000 Ama em atividade. Em 2010, esse número caiu para 2.160. Muitas tinham 70 ou 80 anos. Algumas passavam dos 90, ainda mergulhando todo dia.

Na Coreia, as Haenyeo construíram a mesma tradição. Gerações de mulheres mergulhando com uma única respiração, sustentando suas famílias, desenvolvendo uma estrutura social matriarcal em torno do seu trabalho. A UNESCO reconheceu a tradição Haenyeo como patrimônio cultural imaterial em 2016.

No Mediterrâneo, os mergulhadores de esponja gregos levavam o corpo a profundidades extremas pelo comércio. Alguns desenvolviam o que chamavam de "sangue dos ouvidos"barotrauma por equalização ruim (o ato de equalizar a pressão do ar dentro dos ouvidos enquanto desce, empurrando ar suavemente para eles). Não tinham a ciência. Tinham a necessidade.

Freediving não era recreação. Era como as pessoas alimentavam suas famílias, comercializavam e sobreviviam.

Os rivais, Maiorca e Mayol

A história moderna do freediving competitivo começa com dois homens que não poderiam ser mais diferentes.

Enzo Maiorca era siciliano. Atleta feroz. Competitivo até a medula. Quebrou o recorde mundial em 1960, atingindo mais de 50 metros. Depois continuou quebrando. E quebrando. Foi a régua de uma geração inteira.

Jacques Mayol era francês, criado no Japão. Mergulhador-filósofo que estudou golfinhos, praticou yoga e acreditava que humanos pertenciam à água. Onde Maiorca descia na força, Mayol descia meditando.

A rivalidade definiu as décadas de 1960, '70 e '80. Trocaram recordes entre si. Maiorca cravava um número, Mayol tomava de volta. O establishment científico dizia que 50 metros era o limite absoluto, além disso, o tórax colapsaria, os pulmões romperiam. Os dois ignoraram os cientistas e seguiram em frente.

Em 1976, Jacques Mayol rompeu a barreira dos 100 metros. Uma profundidade que fisiologistas haviam declarado impossível. Ele não só sobreviveu. Voltou à superfície calmo.

A rivalidade nunca foi sobre ódio. Maiorca respeitava Mayol. Mayol respeitava Maiorca. Eles só enxergavam o oceano de jeitos diferentes. Um como arena. O outro como templo.

O Grande Azul

Em 1988, o diretor francês Luc Besson transformou a história Mayol-Maiorca em filme: "O Grande Azul" (Le Grand Bleu). Foi ficcionalizado, os personagens se chamavam Jacques e Enzo, mas a obsessão era real.

O filme foi um fenômeno cultural na Europa. Romantizou o freediving como ninguém antes. De repente, pessoas que nunca tinham visto o mar queriam segurar a respiração. Escolas de mergulho viram a matrícula disparar. Uma geração de atletas descobriu o freediving por causa de um filme.

Continua sendo o filme de freediving mais influente já feito. A cinematografia subaquática, as sequências dos golfinhos de Mayol, a trilha marcante de Eric Serra, criaram uma estética para o esporte que ainda define como o freediving aparece na tela.

Nada mal para um filme que a crítica desprezou na estreia.

A era moderna

A AIDA International (Association Internationale pour le Developpement de l'Apnee) foi fundada em 1992, trazendo regras padronizadas, protocolos de segurança e reconhecimento oficial de recordes para o freediving competitivo.

Umberto Pelizzari virou a primeira superestrela moderna do freediving. Italiano, fotogênico, articulado. Quebrou vários recordes mundiais nos anos 1990 e levou o esporte para o público em geral. O livro dele, "Deep", segue como leitura obrigatória para quem leva a disciplina a sério.

O começo dos anos 2000 viu o esporte se profissionalizar. As competições da AIDA cresceram. Federações nacionais se formaram. Metodologias de treino viraram científicas. Técnicas de equalização, antes passadas informalmente, foram estudadas, documentadas e ensinadas de forma sistemática.

Disciplinas de piscina (apneia estática, dinâmica) ganharam reconhecimento ao lado das de profundidade. Freediving deixou de ser só sobre ir fundo. Virou sobre ir longe, ficar parado, dominar toda dimensão da apneia.

As lendas

Quatro atletas definem a era moderna. As histórias deles são o esporte.

Natalia Molchanova (1962-2015)

A maior freediver que já viveu. Não há debate.

Natalia Molchanova teve 42 recordes mundiais em todas as disciplinas. Ganhou 23 medalhas de ouro em campeonatos mundiais. Foi a primeira mulher a mergulhar além dos 100 metros. O recorde de apneia estática de 9 minutos e 2 segundos, cravado em 2013, não foi batido por nenhuma mulher desde então.

Começou no freediving competitivo aos 40, uma idade em que a maioria dos atletas se aposenta. Em poucos anos, dominava todos os recordes.

Em 2 de agosto de 2015, ela foi para um mergulho recreativo perto de Formentera, Espanha. Tinha 53. As condições eram normais. Desceu e não voltou. Uma busca envolvendo a Marinha Espanhola não achou nada. O corpo nunca foi recuperado.

O filho, Alexei Molchanov, já era um freediver de classe mundial. Ele leva o legado adiante, pelos próprios recordes, pela Molchanovs Education (o sistema de treino que ela desenvolveu) e por uma comunidade que ainda fala o nome dela com reverência.

Alguns recordes de Natalia ainda estão de pé. Mais de uma década depois. Deixe isso afundar.

Herbert Nitsch, "O homem mais profundo da Terra"

Herbert Nitsch tem 33 recordes mundiais. O mais famoso: 214 metros na disciplina No Limits, em 2007. É o mais fundo que qualquer humano já esteve com uma única respiração. Ponto.

Em 2012, tentou 253 metros. Algo deu errado na profundidade, narcose por nitrogênio, o "êxtase das profundezas". Perdeu a consciência durante a subida. A equipe de safety o trouxe à superfície, mas o dano foi devastador: doença de descompressão severa, múltiplos infartos cerebrais.

Os médicos disseram que ele nunca mais andaria. Nunca mais falaria.

Herbert Nitsch provou que todo médico estava errado. Se recuperou. Devagar, dolorosamente, totalmente. Hoje, mergulha de novo. Não por recordes, por prazer. Dá palestras, ensina e segue como a régua pela qual todos os mergulhadores de profundidade são medidos.

214 metros. Com uma respiração. Esse número não é desafiado desde então.

William Trubridge

William Trubridge é o mestre do CNF, Constant Weight No Fins. Sem monofin, sem bi-fins, sem nenhum tipo de assistência. Se puxa pelo cabo, nada até a profundidade só com o corpo e volta nadando.

O recorde dele: 102 metros CNF. A forma mais pura da disciplina mais pura.

Trubridge também é um defensor ferrenho da conservação dos oceanos, usando a plataforma para conscientizar sobre poluição marinha e sobrepesca. Opera a partir do Dean's Blue Hole, nas Bahamas, um dos blue holes mais profundos da Terra e o lar espiritual do CNF competitivo.

Alexei Molchanov

Filho de Natalia. A força dominante atual no freediving masculino. Detentor de múltiplos recordes mundiais, incluindo CWT, Constant Weight, com nadadeiras, descida direta (mais de 136 metros), e FIM, Free Immersion, se puxando pela corda (131 metros).

Alexei não só compete. Toca a Molchanovs Education, um sistema global de educação em freediving baseado nos métodos da mãe. Desenvolve equipamento. Organiza competições. É, ao mesmo tempo, o maior atleta em atividade do esporte e o embaixador mais influente.

Assistir Alexei mergulhar é assistir alguém que cresceu na água. Literalmente. A técnica é da mãe. A profundidade é dele.

Hoje

O freediving em 2026 está irreconhecível em relação ao esporte que Maiorca e Mayol conheceram.

Hoje, gente faz freediving em todos os continentes. Em Dahab, o deserto egípcio encontra o Mar Vermelho e os freedivers treinam o ano todo no Blue Hole. Nas Filipinas, ilhas como Panglao e Anda oferecem água quente, tubarões-baleia e escolas em cada esquina. O Inland Sea de Gozo é uma joia escondida para freedivers europeus. Os cenotes do México parecem um mergulho em outro planeta. A República Dominicana sedia competições profundas em águas vulcânicas.

Mas não é só os spots famosos. O freediving está acontecendo em fiordes na Noruega, cavernas na Croácia, costas sul-coreanas e lagos de água doce nos Alpes. Toda costa, toda massa de água fundo o bastante para mergulhar, alguém está lá, explorando com uma respiração. É isso no freediving: não precisa de infraestrutura. Precisa de água, um buddy e coragem para se entregar.

Não é mais só um esporte. É um estilo de vida. Uma tribo global de gente que organiza a vida em torno de marés e visibilidade, escolhe a próxima cidade pela temperatura da água, conhece estranhos numa boia e sai dali como amigos.

Recordes continuam caindo todo ano. Mulheres ultrapassam barreiras que pareciam inalcançáveis uma década atrás. Disciplinas de piscina produzem números que desafiam livros de fisiologia. A tecnologia, computadores de mergulho, apps de treino, nadadeiras de carbono, segue evoluindo.

Mas a essência não mudou desde que as Ama mergulharam pela primeira vez 2.000 anos atrás. Uma respiração. Um corpo. Um oceano.

A única coisa diferente é que agora você não precisa descobrir tudo sozinho.